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quarta-feira, 18 de junho de 2014

*ENCONTREI MINHAS ORIGENS*

Encontrei minhas origens
Em velhos arquivos
Livros
Encontrei
Em malditos objetos
Troncos e grilhetas
Encontrei minhas origens
No leste
No mar em imundos tumbeiros
Encontrei
Em doces palavras
Cantos
Em furiosos tambores
Ritos
Encontrei minhas origens
Na cor de minha pele
Nos lanhos de minha alma
Em mim
Em minha gente escura
Em meus heróis altivos
Encontrei
Encontrei-as, enfim
Me encontrei.
(*) O professor, poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Ferreira da Silveira foi o idealizador do Dia da Consciência Negra


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Vozes-mulheres

Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem - o hoje - o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
In Cadernos Negros, vol. 13, São Paulo, 1990.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Madrasta Brasil

Ouve-se nas terras do Brasil
Um grito de um povo que lutou e luta a
todo instante
Que constrói este imenso país
E precisa ter vida digna constante
Nós queremos uma terra de igualdade
Não esmorecermos, pois nossos ideais
são fortes
Que injustiça... ’Ô pátria amada’!
A nós só sobrou à má sorte?
Ô pátria, ama-nos como tu és amada...
E serás sempre idolatrada.
Brasil! Desperta do teu sonho e seja
um raio vívido.
Olha como vive a maioria do teu povo
negro:
Nas favelas, nos presídios
Perambulando pelas ruas
Sem saúde, sem lar. sem educação e
sem emprego.
Se em teu formoso céu risonho é
límpido a imagem do cruzeiro
esplandece
Por que não resplandecem os teus
filhos negros
Que construíram e constroem este
Imenso país?
“Gigante pela própria natureza
És belo, és forte, impávido colosso”.
Por que tu exploras e ignoras
teus negros filhos?
Terra, tu és adorada por nos “entre
outras mil”
Queremos justiça Brasil. Ô pátria
Amada .
Se dos filhos negros não és “mãe gentil’
Como podes ser ‘Pátria amada Brasil?
“Deitado eternamente em berço
Esplendido
Ao som do mar e a luz do céu
profundo’...
Desperta Brasil do teu sonho e faze Justiça
Pois já é tarde
E a alegria do meu povo se verá
Quando o nosso país de libertar
De todos os exploradores.
E os nossos bosques terão mais vida
“E a vida em teu seio mais amores”
Ó pátria!
Ama-nos como tu és amada
E serás sempre idolatrada.
“Brasil de amor eterno seja símbolo”
Nossos olhos brilham por justiça, como
um céu estrelado
“E diga o verde-louro dessa flâmula”
Que queremos dignidade e paz no
presente e no futuro
Por tudo que construímos.
Nós merecemos uma justiça imparcial
e duradoura por tudo que passamos
Olha para os teus filhos e me
responde:
Somos ou não discriminados?
Nunca te desprezamos
Te amamos e para a morte somos
condenados.
Terra!Tu és adorada por nós entre
outra mil
Faça-nos justiça Brasil!
“Ô Pátria Amada”
Se dos outros filhos tu és Mãe Gentil?
Por que dos negros tu és Madrasta
Brasil!?

Medianeira-PR , 21/11/96


Autor: José Luiz R. dos Santos
Professor do CEFET-BA

Conceitos do autor:
Mãe adotiva: aquela que procura substituir ou substitui afetuosamente e emocionalmente a
figura da mãe.
Madrasta: a esposa do pai.