Por Carlos Alberto Medeiros
A discussão avançou tanto que vale a
pena recapitular (sem pretender ser neutro, que ninguém o é, embora alguns nem
se dêem conta disso
Em novembro último, um parecer do Conselho Nacional de Educação recomendou
que, para ser adquirida pelo MEC (com dinheiro público, portanto), distribuída a
escolas públicas e apresentada em sala de aula, a obra "Caçadas de Pedrinho", de
Monteiro Lobato, deveria ser "contextualizada", já que continha uma série de
expressões racistas dirigidas à personagem Tia Nastácia ("negra suja", "negra
beiçuda", "macaca de carvão") pela simpática boneca Emília.
A grande imprensa, contudo, dando continuidade a uma prática que vem sendo
amplamente adotada na cobertura da discussão sobre ação afirmativa e cotas na
universidade, prontamente traduziu "contextualização" em "veto" e "censura". Com
base nesses termos, e sem se dar ao trabalho de ler o parecer, intelectuais
respeitáveis acorreram em defesa do festejado autor, supostamente ameaçado por
fanáticos da correção política. Desnecessário acrescentar que intelectuais
igualmente respeitáveis, mas com opiniões opostas, não tiveram vez no
"debate".
Foi nesse clima que o cartunista Ziraldo resolveu ilustrar a camiseta do
bloco carnavalesco Que Merda É Essa com um desenho de Lobato, com cara de quem
não está entendendo nada, abraçado a uma mulata. Em entrevista, Ziraldo
pontificou: "Racismo sem ódio não é racismo". A posição de Ziraldo foi rebatida
numa Carta Aberta a ele dirigida pela escritora Ana Maria Gonçalves em que esta
apresenta uma série de manifestações racistas do próprio Lobato, algumas delas
surpreendentes, mesmo para os padrões da época em que foram escritas, como o
lamento pela ausência de uma Ku-Klux-Klan em nosso país. Mostra-nos ela que
Lobato era um militante da eugenia, pseudociência associada às raízes do
nazismo, que segundo ele deveria ser difundida sutilmente pela escrita. As
expressões racistas de Lobato foram bloqueadas pela grande imprensa, no afã
antiético de manipular a opinião dos leitores, só vindo à tona graças ao
jornalista Arnaldo Bloch, que publicou algumas delas em sua página Logo, do
jornal O Globo. Os defensores ardorosos de Lobato, contudo, ou assumiram a
postura do avestruz, negando-se a considerar aquilo que o próprio Lobato pensava
sobre o tema de raça, ou procuraram – procuram – justificá-lo pelo contexto
histórico. Não deixa de ser irônico que essas pessoas, de modo geral, se alinhem
entre os fãs de Gilberto Freyre, defensor supremo da mestiçagem, enquanto Lobato
a considerava um obstáculo quase inexpugnável ao progresso da sociedade
brasileira. Um belo exercício do duplipensar orwelliano...
Toda essa polêmica constitui uma oportunidade ímpar para uma reflexão sobre a
questão de raça no Brasil. Num paper apresentado num seminário sobre o papel da
mídia nessa discussão, e depois publicado no Observatório da Imprensa, Muniz
Sodré apresenta o seu diagnóstico sobre o comportamento de muitos brancos
brasileiros, e particularmente de muitos intelectuais, diante da forma como o
problema tem sido tratado nos últimos tempos: "nostalgia da escravidão". A
reação irada ao incômodo que é ver questionados não apenas seus próprios
comportamentos e atitudes, mas o status quo que sempre lhes garantiu uma posição
privilegiada numa sociedade em que a cor alva da pele é garantia de valiosos
privilégios, tanto materiais quanto simbólicos. O que essas pessoas não se deram
conta é de que há algo de novo na paisagem intelectual e política brasileira. De
simples objetos de estudo, um número considerável de negros trocou de posição no
microscópio, passando a observar criticamente a sociedade e a produzir textos
sobre o tema de raça, frequentemente legitimados pelos ritos acadêmicos. Vem se
produzindo e divulgando, assim, uma visão que parte de outra perspectiva, a dos
que se encontram na extremidade "receptiva" da discriminação e do racismo, para
não só apontar problemas que até ontem se ocultavam sob o manto da "democracia
racial" como sugerir medidas capazes de amenizá-los e, com o tempo, eliminá-los.
A concretização de algumas dessas ideias, com o indispensável apoio de setores
mais sensíveis da elite branca, tem provocado, em paralelo, reações muitas vezes
irracionais, como algumas das que discutimos neste texto.
Abusados, negros passaram a utilizar o conhecimento adquirido na academia
para questionar os próprios intelectuais brancos que por longo tempo detiveram o
virtual monopólio da discussão de raça no Brasil. Alguns deles têm dedicado
parte de seu tempo e esforço à identificação de inconsistências e
incongruências, que perceberam abundantes, no pensamento desses "mestres",
revelando como, em muitos casos, um discurso supostamente "científico" funciona
como disfarce ideal para a disseminação de verdades assentadas unicamente na
ideologia. Como explicar, por exemplo, que estudiosos que ganharam prestígio e
posições estudando o negro e sua cultura, e que reconhecem a existência do
racismo e da discriminação, sejam capazes de negar a possibilidade de
identificar quem pertence a esse grupo para fins de discriminação positiva? Como
é possível negar com veemência a validade do conceito de raça, ainda que na sua
acepção sócio-histórica, e simultaneamente tecer loas à nossa maravilhosa
miscigenação, ou seja, a mistura das mesmas raças que se afirma não existirem?
Provocações como essas costumam ficar no vazio, demasiadamente incômodas para
serem respondidas. Mas não passam incólumes a quem tenha um mínimo de
preocupação com essa coisa, aparentemente meio demodée, a julgar pelo
comportamento Fox News da grande mídia brasileira e de seus leitores acríticos,
denominada honestidade intelectual.
Ao desnaturalizar manifestações racistas profundamente entranhadas em nossa
sociedade, a ponto de fazerem parte daquilo que Bourdieu chamava de habitus –
atitudes e comportamentos pré-reflexivos, transmitidos, aprendidos e
reproduzidos inconscientemente (como o costume de chamar de "negão" um homem
negro desconhecido, sem se preocupar com a possível reação do interpelado) –, os
negros antirracistas e seus aliados brancos perturbam a falsa harmonia baseada
em relações de superioridade/inferioridade quotidianamente reforçadas, no plano
simbólico, pela linguagem. A esse propósito, Joel Rufino dos Santos relatou, em
seu livro "O que é racismo?", um episódio revelador. Reproduzo de memória.
Estava ele num estádio assistindo a uma partida de futebol quando um jogador
negro fez uma jogada errada e alguém gritou: "Crioulo filho..." Como de hábito,
isso não provocou nenhuma reação. Foi "natural". Joel esperou até que um jogador
branco cometesse um erro e replicou: "Branco filho...!" Aí se instaurou o
mal-estar. Um sujeito, então, aproximou-se dele e esclareceu: "Fui eu que gritei
aquilo, mas não sou racista. Sou oficial do Exército." Joel esperou até outra
manifestação "natura"l antinegro ocorresse, o que não demorou muito, e comentou
em voz alta: "Outro oficial do Exército."
Pois é, como vemos nesta discussão, há por aí uma quantidade enorme de
oficiais do Exército.
http://www.geledes.org.br