segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Pontos de vista - Consciência negra na escola




O Brasil possui uma das maiores diversidades socioculturais do mundo. Todavia, a valorização de grupos étnicos pela sociedade ainda é baixa. Celebrado no dia 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra homenageia as raízes africanas e a miscigenação presente em nossa cultura. Com tal realidade, em 2011 a Unesco declarou ser o Ano Internacional dos Afrodescendentes, auxiliando escolas e instituições a reconhecer a importância de trabalhar a cultura negra no cotidiano escolar. Conforme a lei federal nº 11.645, o conteúdo programático das escolas deve apresentar aspectos plurais da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira. Como a história da África e dos africanos pode ser indroduzida na Educação Básica? Como destacar o valor da luta dos negros no processo de formação do Brasil através da transdiciplinaridade? Para debater essas e outras questões, convidamos as especialistas Vanda Lúcia Praxedes e Telma Cezar Martins.
Telma Cezar da Silva Martins
A essência do Dia da Consciência Negra está bem longe de ser uma data comemorativa, que deve ser festejada e celebrada. Este dia pode ser um marco para representar a resistência de um povo que vem trazendo na sua história consequências de uma sociedade excludente, que por conta das "noções" de diferença entende que um povo é inferior a outro, por isso, pode escravizar ou excluir do sistema socioeducacional. Um dia, um marco, mas as ações de conscientização da comunidade escolar não podem se estabelecer apenas neste dia, mas devem firmar-se no cotidiano da escola.
Oportunizar o desenvolvimento de uma consciência negra na escola é possibilitar a reflexão de estudantes, sobre o porquê, o povo negro, após 120 anos da abolição do sistema escravista, ainda vivência um alto índice de violência, de exclusão educacional e, consequentemente, exclusão do mercado de trabalho de jovens negros e negras, comparado ao índice estabelecido aos jovens brancos.
Conscientizar, portanto, é ajudar a comunidade escolar a compreender que o Brasil é um país racista, e, por isso, precisa ter políticas públicas com recorte racial. Conscientizar é criar oportunidades para que a criança negra tenha sua identidade valorizada, a partir do seu corpo, que traz características específicas da sua etnia. Conscientizar é ter profissionais da educação sensibilizados e comprometidos com a temática do racismo na escola, não silenciados diante de ações preconceituosas, racistas, que minimizam a pessoa negra. Conscientizar é sair do espaço do evento que apresenta um estereótipo do povo negro, como aquele que dança e se alimenta de feijoada e tapioca e ir para o espaço da Cultura Africana e Afro-Brasileira que tem riquíssimas contribuições na Literatura, Arte, Religião, Política e outras áreas do conhecimento.
Este tempo de conscientização requer, no mínimo, dois movimentos: um para o interior da escola, olhando e erradicando todas as ações racistas e preconceituosas enraizadas e institucionalizadas no ambiente escolar e outro em direção aos sujeitos negros e negras que nelas atuam, oportunizando que estes sejam, de fato, protagonistas da sua história e participem de forma digna deste espaço que lhe é devido. Para que, simultaneamente, os resultados destas ações afirmativas e de reparo, atinjam o cerne da sociedade, impelindo-a a abolir essa desumana distinção de tratamento entre seus diferentes sujeitos.
Mestre em Educação, pedagoga, especialista em Educação Infantil (UMESP), coordenadora e professora do curso de Pedagogia na Faculdade Zumbi dos Palmares. Redatora da Revista Bem-te-vi, material de ensino religioso para crianças e pré-adolescentes.




Vanda Lúcia Praxedes
Depois de oito anos da sanção da Lei n.o 10.639/03, o lugar social da História da África e da cultura afro-brasileira como disciplina escolar ainda tem constituído um campo de tensões e disputas, resistências e rupturas no espaço escolar.
Nesse contexto, parto do pressuposto de que existe no universo escolar uma "tensão dinâmica", que pode refletir de forma tanto positiva quanto negativa no conjunto de práticas pedagógicas, ações, projetos desenvolvidos no interior da escola. Vai depender do alcance e da compreensão do caráter político e educativo da Lei por parte dos gestores e dos professores.
Mesmo diante de avanços e recuos na implementação da Lei n.o 10.639/03 na educação básica, pesquisas recentes têm demonstrado que essa "tensão dinâmica" tem cada vez mais imposto uma profunda reflexão crítica sobre a prática pedagógica, especialmente por parte dos educadores que passam por cursos de formação na perspectiva da educação das relações étnico-raciais.
Têm apontado ainda para a necessidade de se criar novas formas de pensar e de conceber o ensino e o aprendizado da nossa história, de modo a romper com o eurocentrismo até então hegemônico na análise histórica.
Como afirma Ki-Zerbo, historiador africano, a história do continente e dos povos africanos deve ser compreendida na perspectiva de um "saber transformador". Um dos caminhos possíveis para a construção desse saber transformador no cotidiano da instituição escolar seria a inserção da questão étnico-racial nas múltiplas propostas, nos projetos de ensino e em especial no projeto político-pedagógico de cada escola. Desse modo, a Semana da Consciência Negra em novembro seria o ponto de culminância de todas as atividades realizada ao longo do ano letivo, e não centradas apenas no mês de novembro.
Nessa direção, a "tensão dinâmica" refletiria de forma positiva no ambiente escolar, criando condições favoráveis para a superação do racismo na sociedade brasileira.
Doutora em História Social da Cultura. Professora da FAE/UEMG. Membro e Pesquisadora do Programa Ações Afirmativas na UFMG. Autora e organizadora de livros e artigos sobre história do negro em Minas Gerais, Alforrias, Gênero, Educação.
Fonte: Educa Brasil

 

 

domingo, 21 de outubro de 2012

OFICINA: MÚSICA E ETNIA



OBJETIVO - Discutir sobre as relações etnicorraciais na sociedade brasileira e sua representação nas letras da MPB e como estas naturalizam as diferenças etnicorraciaisexistentes no Brasil.
TEMPO - 60 minutos
NÚMERO DE PARTICIPANTES - Até 15.
MATERIAL: reprodução CD, folhas de papel madeira, pincéis atômicos, fita crepe ou adesiva, cópias da música que se vai trabalhar, aparelho de som.
CONTEÚDO: É importante que sejam trabalhadas músicas que tratem da relação étnicorracial no Brasil, mas que façam parte do repertório ou da memória musical/cultural do grupo com o qual se pretende trabalhar. Procure oferecer uma variedade de ritmos e de estilos musicais. Mas tenha sempre na mão um acervo que o grupo desconheça, depois de trabalhar o que for de conhecimento do grupo, inclui outras produções musicais, de modo que o acervo do grupo trabalhado seja ampliado.
METODOLOGIA:
1)    Distribuir, para cada participante, uma cópia da música;
2)    As pessoas poderão se assim desejar caminhar/dançar pela sala ouvindo,cantando e sentindo a música, coloque a música numa altura, de modo que possa ser ouvida várias vezes;
3)    Pedir para as pessoas socializarem o que sentiram ao ouvir a música;
4)     Estimular o debate entre as diferentes pessoas, de modo que elas falem daquilo que lhes chamou a atenção na letra da música; do ritmo, que questões podem ser aprendidas com a música; o que os compositores desejaram ao comporem essa música; do que trata a letra da música, letra, ritmo e melodia estão relacionados.
5)    Montar um grande painel a partir das diferentes falas;
6)    Finalizar a atividade ouvindo e cantando a música novamente;
7)     Avaliar os resultados obtidos. Como você está se sentindo depois dessa oficina, como você se enxergará e enxergará os outros?
SUGESTÕES DE MÚSICAS
>      Identidade, Leci Brandão;
>      Heranças Bantos –
>      Raça, Milton Nascimento;
>      Haiti, Elza Soares;
>      A carne, Elza Soares;


Heranças Bantos

Ilê Aiyê

Composição: Paulo Vaz & Cissa
Eu vim de lá
Aqui cheguei
Trabalho forçado
todo tempo acuado
sem ter a minha vez (Bis)

Dos grandes lagos
Região em que surgiu
Os Bancongos, os Bundos,
Balubas, Tongas, Xonas, Jagas Zulus
Civilização Bantu, que no Brasil concentrou
Vila São Vicente, canavial de presente,
Pau Brasil, Salvador

Cada pedaço de chão,
cada pedra fincada,
um pedaço de mim
Ilê Aiyê
O povo Bantu ajudou
a construir o Brasil

Pedra sobre pedra
Sangue e suor no chão
agricultura floresce,
metalurgia aparece,
Candomblé, religião
Irmandade Boa Morte
Rosário dos Pretos, Zumbi lutador
Liderança firmada,
que apesar do tempo, o vento não levou

Um legado na dança
Influência no linguajar,
sincretismo na crença,
na culinária o bom paladar
Tristeza Palmares, Curuzu alegria,
Ilê Aiyê Liberdade Expressão Bantu
viva da nossa Bahia

 
Curso Cidadania e Identidades Negras