Sou negra há menos de um ano. Antes, era morena. Minha cor era praticamente travessura do sol. Era morena para as professoras
do
colégio católico, coleguinhas — que talvez não tomassem tanto sol — e
para toda a família que nunca gostou do assunto. “Mas a vó não é
descendente de escravos?”, eu insistia em perguntar. “E de índio e
português também”, era o máximo que respondiam sobre as origens da avó
negra. Eu até achava bonito ser tão brasileira. Talvez por isso
aceitasse o fim da conversa.Em agosto do ano passado, quando fui fazer uma reportagem na Câmara Municipal, passei pela rua Riachuelo onde vi a placa “Educafro“. Já tinha ouvido falar sobre o cursinho comunitário, mas não conhecia muito bem a proposta. Entrei. O coordenador pedagógico me explicou a metodologia de ensino com a cumplicidade de quem olha um parente próximo. Quando me ofereci para dar aulas, seus olhos brilharam. Ouvi que como a maioria dos professores eram brancos, eu seria uma boa referência para os estudantes negros. Eles veriam em mim, estudante da Universidade de São Paulo e da Faculdade Cásper Líbero, que há espaço para o negro em boas faculdades.
Saí sem entender muito bem o que tinha ouvido. Fui até a Câmara dos vereadores, fiz a entrevista, e segui minha rotina. Comecei a reparar que nos lugares onde freqüento as pessoas também não tomam tanto sol. O professor do Educafro toma. Será por isso que ele me tratou com tanta cumplicidade?
Pensei muito e por muito tempo. Não identifiquei nada de africano nos costumes da minha família. Concluí que a ascensão social tinha clareado nossa identidade. Óbvio que somos negros. Se nossa pele não é tão escura, nossos traços e cabelos revelam nossa etnia. Minha mãe, economista, funcionária de uma grande empresa, foi branqueada como os mulatos, que no século XIX passavam pó-de-arroz no rosto porque os clubes não aceitavam negros.
Eu fui branquedada em casa, na escola, no cursinho e na universidade. Como afirma o cientista político Francisco Weffort, no texto Branqueamento, “a expropriação imaginária das glórias dos negros o branqueamento apagou, especialmente para os pobres, o exemplo de líderes que podiam sugerir-lhes outros caminhos, além da humilhação cotidiana”. Ainda em busca de identidade afirmo com alegria que sou negra há menos de um ano. E agradeço ao professor que pela primeira vez, em 21 anos, fez o convite para a reflexão profunda de minhas origens.
Fonte: Bianca Santana
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